Ádyla Maciel tem estilo e tem palavra
Ádyla Maciel firmou-se na cena cultural brasileira pela rara capacidade de harmonizar inovação e densidade. Escritora respeitada da nova geração, figura badalada e presença constante nos mais relevantes eventos culturais, ela cultiva versatilidade sem abrir mão do rigor, alia estilo à substância e compreende a tradição não como limite, mas como estrutura.
Entre vernissagens, lançamentos literários e debates intelectuais, sua presença tornou-se sinônimo de elegância reflexiva e coerência estética. Em um tempo marcado pela efemeridade dos discursos, Ádyla reafirma a força do que é consistente: inovar, para ela é essencial.
1. A expressão “mulher de palavra” pode ser lida como afirmação política?
Ádyla — Historicamente, “homem de palavra” designava alguém cuja promessa dispensava contrato. Ao afirmar-me mulher de palavra, reivindico equivalência simbólica. Palavra empenhada é trato que ultrapassa o discurso, alcança a conduta. A literatura pode admitir múltiplos sentidos; o caráter, não.
2. Isso influencia sua escrita?
Ádyla — Totalmente. A palavra literária comporta ambiguidade estética, mas não incoerência ética. Escrever é assumir responsabilidade sobre aquilo que se formula.
3. Qual o papel da literatura hoje?
Ádyla — A literatura desacelera o pensamento. Em meio à fragmentação constante, ela exige elaboração. Permanecer tornou-se quase um gesto de resistência.

4. Sua linguagem é direta por escolha?
Ádyla — Clareza é uma escolha retórica. A aparente simplicidade pode ocultar estruturas complexas. Nem toda densidade precisa ser hermética; às vezes, a transparência é a forma mais sofisticada de construção.
5. O que você quis dizer com esse poema?
VOLTA
Volta, amor
Aqui somos um
Yin e yang na mesma direção.
Nessa cama de lençóis
Brancos-algodões
Algodão doce
Derretendo na língua,
Somos (um) rio
desaguando noutro rio
Somos o caminho.
Quando deixamos de buscar
E apenas somos.
Ádyla — O poema propõe unidade sem apagamento. “Somos um” não é fusão que elimina identidades, mas convergência de direção. Yin e yang coexistem, não competem. O “algodão-doce derretendo na língua” é metáfora do beijo: leve, doce e efêmero, mas memorável. O amor ali não é conquista, é estado.
6. Você participa de grupos ou coletivos literários?
Ádyla — Valorizo o diálogo, mas não opero por pertencimento automático. Minha trajetória se constrói por afinidade intelectual, não por agrupamento estratégico. Autonomia não é isolamento; é responsabilidade integral sobre o que produzo.
7. Seu trabalho parte de um compromisso pessoal ou de um propósito coletivo?
Ádyla — Compromisso nasce no íntimo; propósito ganha dimensão pública. Escrevo a partir de convicção pessoal, mas compreendo que toda palavra publicada atravessa o coletivo. Linguagem nunca é neutra, sempre aponta direção.
8. Que tipo de herança você acredita que sua palavra pode deixar?
Ádyla — A herança mais duradoura não está no aplauso nem na celebração momentânea, mas na qualidade estética da obra, na marca que permanece quando o ruído cessa.

9. Como foi sua atuação no programa Papo de Artista entre 2022 e 2024?
Ádyla — Foi um período de interlocução intensa e amadurecimento artístico. O Papo de Artista foi um espaço de reflexão sobre cultura contemporânea e circulação de ideias, no qual atuei de 2022 até 2024.
Em 2020, também atuei como jurada de música no programa Vem Cantar Comigo, do SBT Interior. A experiência ampliou meu olhar sobre performance, técnica e sensibilidade — elementos que dialogam diretamente com a poesia. Julgar é exercitar escuta, e a escuta é fundamento tanto da música quanto da palavra.
10. Qual é a sua relação com vernissagens?
Ádyla — Vejo a vernissagem como um rito de circulação cultural. É o momento em que a obra deixa o processo íntimo e passa a existir no olhar do outro. Há também uma dimensão de network, não como troca superficial, mas como rede de pensamento e interlocução. A vernissagem é menos vitrine e mais convergência.
Minha arte é high-tech, é pop, é despojada.